14/04/2010

Estetas do apocalipse

Esta coluna foi publicada no jornal PropMark – edição de 05/04/2010

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Prezado leitor,

Tal como o imperador Nero, que ficou tocando rabeca quando Roma ardia em chamas, enquanto a cidade de São Paulo encontra-se numa situação de verdadeira calamidade, com inundações diárias nas principais avenidas, ruas totalmente esburacadas, um trânsito mais infernal do que nunca, motociclistas morrendo (e matando) de hora em hora, roubos e assaltos como jamais visto e lixo abandonado por toda parte, o prefeito Kassab, preocupadíssimo com a estética da cidade, anuncia o lançamento do “Cidade Limpa 2″, destinado a reduzir a iluminação das fachadas de lojas, considerada muito forte por sua equipe de refinados arqui tetos!

Em entrevista ao Estadão, a arquiteta-mór do alcaide, Regina Monteiro, explica que “São Paulo é cor de laranja e esta é a cor que predomina nos postes públicos e nem sempre é a que mais ilumina”. As luzes na fachada do Hospital Santa Catarina, na Avenida Paulista, extremamente discretas, a ponto de quase não se ler o letreiro, são elogiadas por ela. “Olha a iluminação desta lateral, que elegante!”. E na mesma avenida critica a iluminação do prédio do Bic Banco, que considera excessiva. “É uma valorização exclusiva do negócio”, explica ela.

Prefeito, sugiro que arranje um emprego na bienal de artes para esta moça e contrate gente de pé no chão para cuidar dos verdadeiros problemas da cidade.

Será que o Sr. não percebe o ridículo de se ocupar de uma banalidade destas com a quantidade de problemas gravíssimos que a sua cidade enfrenta e que o Sr. não foi capaz de resolver nem de encaminhar até agora?

Aliás, não é apenas uma banalidade, mas uma completa e total falta de visão administrativa. Sim, pois o Sr. devia é agradecer e até conceder desconto no IPTU às empresas que iluminam bastante as suas fachadas pois elas estão compensando, por sua própria conta, a péssima iluminação pública da cidade, que faz os carros não enxergarem os buracos e facilita a ação dos bandidos nas ruas.

Com o seu Cidade Limpa 1 o Sr. fez com que ficasse quase impossível de se encontrar uma loja, uma farmácia ou qualquer estabelecimento em São Paulo, tão ridiculamente pequenos são os letreiros permitidos em suas fachadas. E a sua arquiteta-mór ainda tem o desplante de achar ótimo que o letreiro de um hospital seja pouco visível? Será que ela pensaria o mesmo se alguém da sua família precisasse achar o hospital à noite, numa emergência?

E que diabos ela tem contra as atividades comerciais para dizer que a placa do banco “valoriza apenas o negócio”? O que mais deveria ressaltar a fachada de uma loja ou de um estabelecimento comercial qualquer senão a própria atividade que lá se realiza?

Esta atitude preconceituosa contra os negócios pode pegar bem em certas academias que se acham superiores demais em relação ao “comércio”, esquecendo-se, aliás, que são os impostos sobre o comércio que pagam os salários e benesses dos seus professores e funcionários.

Mas esta visão anticomercial não faz a menor sentido para governantes como o Sr. que aproveitam-se da menor brecha para aumentar os impostos de todas as atividades comerciais e de serviços, sem falar do brutal aumento do IPTU que o Sr. começou a promover este ano na cidade de São Paulo – revelando, aliás, uma inacreditável insensibilidade política ao aumentar os impostos justamente no momento em que a sua administração tem a pior performance.

Será que com este aumento absurdo do IPTU o Sr. está querendo compensar o que perdeu de arrecadação com as licenças de outdoors e todos os tipos de cartazes com o seu Cidade Limpa 1? Muita gente perdeu seus empregos, seus negócios e suas fontes de renda com esta sua primeira e descabida limpeza “estética” da cidade, mas o Sr. não quer perder nada? E agora o Sr. vem com esta “pérola” do Cidade Limpa 2, querendo reduzir a iluminação das lojas? Será que o Sr. perdeu o senso do ridículo?

Relembro que estamos em ano de eleição e embora o seu cargo não vá ser renovado, o seu partido, apesar de ter ficado bem “sujo” com as estripulias do seu colega de Brasília, certamente vai querer exercer um papel na sucessão federal e nas estaduais.

E que grandes realizações o Sr. vai poder apregoar nesta São Paulo em estado de verdadeira calamidade? Será que o seu partido vai ter coragem de falar em “cidade limpa” para os cidadãos que convivem com o lixo por toda parte e navegam pelas ruas a cada final de tarde? Será que eles vão esquecer tudo isso e achar o Sr. um “Superman” só porque diminuiu os cartazes das lojas e agora quer diminuir também a iluminação das farmácias e hospitais?

Prefeito, aceite o conselho deste eleitor seu, hoje arrependido de tê-lo sido (como certamente muitos): deixe de fazer como Nero, bote a sua viola no saco, esqueça essas bobagens todas e comece a limpar as ruas e os bueiros e tampar os buracos, de verdade!

Abraço,

Silvio Lefèvre

Silvio Lefèvre, que escreve esta coluna, é diretor da Resposta Editorial e da Livraria Resposta. Membro do Conselho de Administração da ABEMD (Associação Brasileira de Marketing Direto) até 16/08/2009, quando pediu demissão em protesto contra o endosso de um código de auto-regulamentação altamente danoso para a atividade, Silvio foi presidente desta entidade e membro do International Advisory Board da DMA, a Direct Marketing Association, dos Estados Unidos.

Sociólogo, com graduação e mestrado pela Universidade de Paris (Sorbonne), atuou como jornalista na Abril Cultural, de onde migrou para o marketing e dirigiu a house agency especializada em marketing direto Grupo Abril. Atuou posteriormente na Credicard e nas agências Ogilvy & Mather, Leo Burnett, Propeg e na sua própria empresa de pesquisa e consultoria, a Resposta MD.


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