
Escrevo também para lembrar que os primeiros anúncios publicitários feitos neste país foram de coisas triviais como vender um burro, achar um cão perdido ou buscar uma cozinheira.
O peixe que um anúncio vende pode ser vender um carro, um perfume, recrutar uma cozinheira, mas anúncios são feitos para vender o peixe.
Os melhores anúncios são aqueles que se não se esquecem disso.
Que não se esquecem de que a propaganda foi feita para chamar a atenção da pessoa, para reter o leitor, o telespectador. Como você já está lendo este texto por alguns parágrafos, é sinal de que estou sendo bem-sucedido nessa função.
O título "Procura-se uma grande cozinheira" é chamativo. Porque é inesperado. Sobretudo no caderno Mercado da Folha.
Títulos têm de ser inesperados, senão ninguém lê anúncio. E as pessoas, como você bem sabe, não nasceram para ler anúncios.
A chamada é verdadeira. Não é propaganda enganosa. Porque preciso de fato de uma cozinheira.
É verdade que a quituteira que procuro talvez não leia este caderno. Mas a Folha é o jornal mais lido em todo o país e certamente deve ter alguém entre seus leitores que pode conhecer a minha prenda.
Estamos chegando ao final do ano, ao período de Natal, as pessoas estão imbuídas do espírito natalino e podem fazer essa boa ação para um ex-gordo como eu.
Portanto, se você conhece uma grande cozinheira, mande um e-mail paranizan@africa.com.br. É óbvio que preciso de referências. Melhor ainda se forem de gourmets ou gordos, de pessoas de colesterol e acido úrico altos.
A razão do meu desespero por uma cozinheira é fruto do bom momento econômico do Brasil.
Como em qualquer país que se preze, graças a Deus não é mais fácil encontrar empregados domésticos no nosso prezado país.
As pessoas querem ter seu próprio negócio, abraçar profissões "mais nobres". E isso é ótimo para elas e para o país.
É uma mudança transformadora, que nos impacta das melhores maneiras possíveis, mas também nos coloca na desesperadora e cafajeste situação de desejar a cozinheira do próximo.
Peço aos leitores que sejam solidários comigo e aos jovens redatores de propaganda que lembrem o que o grande guru da propaganda David Ogilvy me ensinou: propaganda é para vender.
Ela tem de ser sedutora, confiável e vendedora como um bom corretor de imóvel. Seja o anúncio de um celular, seja o anúncio procurando uma cozinheira, ele tem de ter impacto, eficiência e graça.
Se não entretém, não chama a atenção e não vende, não é boa propaganda. Propaganda tem de ter molho e sal. E ser feito por gente que tem boa mão.
Espero que este artigo-anúncio classificado atinja seus objetivos. E que graças à força da Folha e de santo Expedito eu encontre a minha tão sonhada cozinheira.
Aliás, cozinheira anda tão difícil que hoje a gente não pede mais para santo Expedito, a gente pede é para santo Antônio.
NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC
Artigo publicado na Folha de São Paulo, 15/11/11, caderno Mercado, página B9
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